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Impressão 3D na odontologia

Na odontologia, impressão 3D quer dizer, quase sempre, fotopolimerização em cuba: resina líquida curada camada por camada por luz. As três variantes que você vai encontrar são SLA, DLP e LCD, e a diferença entre elas importa menos do que o marketing sugere. O que define a exatidão da peça é a extensão dela, a resina, a orientação, a pós-cura e a calibração da máquina, nessa ordem.

Guia cirúrgica recém-impressa em resina, segurada entre os dedos com luva.
A impressora é o passo mais barato de acertar do fluxo digital. O erro costuma vir de antes dela.

As três tecnologias, sem marketing

Todas as três curam a mesma resina com luz. Muda como a luz chega até ela, e essa diferença tem consequência prática sobretudo no tempo de impressão e no consumível que desgasta.

Tecnologia Como a luz chega Tempo Onde a exatidão se perde
SLA
Estereolitografia a laser
Um laser desenha o contorno de cada camada, ponto a ponto, guiado por espelhos. O tempo cresce com a área. Encher a mesa custa tempo. A calibração dos espelhos é onde a exatidão se ganha ou se perde.
DLP
Projeção digital
Um projetor exibe a camada inteira de uma vez, usando uma matriz de microespelhos. O tempo depende da altura, não da quantidade de peças. A resolução cai conforme o volume de construção cresce, e há distorção nas bordas.
LCD / mSLA
Estereolitografia mascarada
Uma matriz de LEDs atrás de uma tela LCD que mascara a luz e cura só o desenho da camada. Também cura a camada inteira de uma vez. Depende da uniformidade da luz e da qualidade da tela, que é peça de consumo.

Fora da fotopolimerização existem outras tecnologias no ecossistema odontológico. Jateamento de material, ou PolyJet, para peças de altíssimo detalhe e multimaterial. Sinterização e fusão a laser de metal para infraestruturas em cobalto-cromo. Filamento fundido, o FDM, que aparece em modelo de estudo e cuja exatidão ficou em último lugar nas comparações publicadas.

O achado que contraria o folheto. Em um estudo com 72 guias cirúrgicas impressas em cinco tecnologias, SLA, DLP e PolyJet ficaram estatisticamente equivalentes. O que mudou a exatidão foi a extensão da guia. Traduzindo: escolher entre SLA, DLP e LCD não é a decisão que vai definir se a sua guia assenta.

Duas máquinas, duas arquiteturas

As duas abaixo estão aqui para você ver a diferença de formato, e não como indicação de compra. São as duas arquiteturas que um dentista encontra na prática quando vai comprar uma impressora de bancada.

Impressora 3D de resina Elegoo Mars, de corpo vertical com tampa transparente e tela sensível ao toque na frente.
LCD · mSLA

Corpo alto, cuba aberta

Exemplo: Elegoo Mars 5 Ultra

A matriz de LEDs fica embaixo e a tela LCD mascara a luz. É a arquitetura mais comum e a mais barata de comprar. A tela é peça de consumo: ela desgasta e é trocada.

Impressora 3D de resina Rayshape Edge mini, com tampa vermelha translúcida sobre base branca e tela frontal.
LCD · mSLA odontológica

Corpo compacto, feita para clínica

Exemplo: Rayshape Edge mini

Mesma arquitetura de tela mascarando LEDs, em máquina dedicada à odontologia: resinas validadas, fluxo de consultório e duas opções de mesa. A tela continua sendo peça de consumo.

Fotos de divulgação dos fabricantes. As duas máquinas acima são LCD, e estão aqui porque são as que aparecem na indicação de compra do Giovanni. Nenhuma foto de DLP: até termos uma máquina DLP em mãos para fotografar, preferimos não ilustrar a tecnologia com material que não conferimos. A Hajime tem relação comercial declarada com parte das marcas citadas, e a página de indicação explica qual é.

O que dá para imprimir, e com qual resina

Na odontologia, quem carrega a responsabilidade regulatória é a resina, não a máquina. Cada formulação é validada para um tipo de contato com o paciente e uma duração de uso, e é isso que define a classe de risco.

Peça Classe de resina Tipo de contato
Guia cirúrgica Resina de guia, autoclavável Contato transitório, em campo cirúrgico.
Modelo de trabalho Resina de modelo Não toca o paciente.
Placa miorrelaxante Resina de placa, biocompatível Uso prolongado em boca.
Provisório Resina de provisório Uso temporário em boca.
Coroa definitiva Resina com carga cerâmica Uso permanente em boca.
Base e dentes de prótese total Resina de base e de dentes Uso permanente em boca.
Moldeira individual Resina de moldeira Contato transitório.
Padrão para fundição Resina calcinável Não toca o paciente.
Resina de modelo não vira placa, e resina de provisório não vira coroa definitiva. A separação não é comercial: é de biocompatibilidade e de propriedade mecânica.

No Brasil, as resinas odontológicas circulam como dispositivo médico, com número e classe de risco. A RDC 751/2022 organiza essas classes e determina notificação para as classes I e II e registro para as classes III e IV. Dispositivos feitos sob medida para um paciente ficam fora dessa resolução e são tratados pela RDC 925/2024, que revogou a antiga RDC 305/2019, ainda muito citada por aí.

O que não afirmamos. Não conseguimos confirmar em legislação primária se a impressora em si precisa ser regularizada, nem qual é exatamente o papel do dentista que imprime na própria clínica diante da RDC 925/2024. Existe conteúdo na internet afirmando as duas coisas com segurança, e sem citar a base legal. Se essa dúvida for sua, ela é jurídica e regulatória, e merece a resposta de quem trabalha com isso.

O pós-processamento é etapa clínica, não acabamento

Esta é a parte do assunto com a melhor evidência disponível, e é também a mais negligenciada na prática. A peça sai da impressora ainda não pronta, em nenhum sentido.

  1. Lavagem

    Retira a resina não curada da superfície. Álcool isopropílico a 90% ou mais é o padrão, e é inflamável a partir de 12 °C, o que é um dado de segurança relevante em consultório. Existem solventes alternativos com ponto de fulgor muito mais alto.

  2. Secagem

    Peça úmida entra na pós-cura com solvente na superfície, e o resultado muda. É a etapa mais pulada e a mais barata de fazer certo.

  3. Pós-cura

    É onde a resina termina de polimerizar. Não é acabamento: é o que define se a peça é biocompatível e se ela tem a dimensão projetada. Aqui está a parte mais bem documentada de todo o assunto, e vale ler o quadro abaixo.

  4. Remoção de suportes e esterilização

    Suporte mal posicionado deixa marca em superfície de assentamento. E o ciclo de esterilização precisa ser o validado para aquela resina: em resina de guia, o ciclo a 121 °C manteve o desvio em faixa aceitável e o ciclo a 134 °C produziu alteração dimensional mensurável.

Por que a pós-cura não é opcional. Em um modelo organotípico de mucosa oral, resina pós-curada por um minuto reduziu em mais de 70% o metabolismo e a viabilidade dos queratinócitos, em todos os períodos avaliados; com 10 e 20 minutos o efeito foi apenas leve a moderado. Em outro estudo, com 600 discos de resina de placa, a sobrevivência celular variou de 9,1% a 58,5%, com efeito significativo de pós-cura, sistema de lavagem e material, e nenhum efeito significativo da orientação de impressão.

Uma peça mal curada não é só mais frágil. Ela libera monômero residual dentro da boca do paciente.

Onde a exatidão realmente se perde

Quatro números que reorganizam a conversa, todos de estudos listados no fim desta página.

27,9 a 83,3 µm

Faixa de veracidade de modelos impressos em seis máquinas diferentes. O resultado dependeu da máquina específica, não da tecnologia: uma SLA ficou em primeiro e outra em quinto.

A extensão manda

Em 72 guias comparadas, a tecnologia teve impacto limitado e o tamanho da guia afetou a exatidão. Guia de arco completo é problema diferente de guia de três dentes.

Três meses na gaveta

Guias de arco completo aumentaram significativamente o desvio de superfície após três meses guardadas, em SLA, PolyJet e DLP. Imprimir perto da data importa.

Até 1,4 mm antes da impressora

Modelos obtidos a partir de tomografia distorceram até 1,4 mm nos espaços edêntulos em um estudo da FORP-USP. Nenhuma impressora corrige um dado ruim de entrada.

Fora da cuba: as impressoras de cápsula

Tudo acima vale para impressora de cuba, que é o que existe na esmagadora maioria das clínicas. Desde 2024 apareceu uma categoria diferente, feita para um problema específico: resina com muita carga cerâmica é viscosa demais para trabalhar em cuba aberta, e carga cerâmica é o que permitiria imprimir coroa definitiva.

Duas tecnologias atacam isso de maneiras diferentes. A DPS, da SprintRay Midas, elimina a cuba e pressuriza a resina dentro de uma cápsula. A APS, da Shining 3D Ceramix-Nano, mantém a projeção DLP e troca a separação mecânica de camada por ar comprimido. Comparamos as duas, e a evidência sobre coroa impressa definitiva, em página própria.

DPS e APS, lado a lado

O próximo passo

Se você chegou até aqui querendo decidir uma compra, a pergunta que resolve não é qual tecnologia é melhor, e sim o que você vai imprimir e com que frequência. É o que a próxima página trata.

Qual impressora 3D comprar Aprender o fluxo completo

Quer saber mais? Impressão 3D na odontologia Uma conversa ao vivo sobre o que mudou na impressão 3D odontológica e o que vale atualizar no seu fluxo. No YouTube, Dr. Giovanni Mangini / Odontologia Digital · 2 h 03 · 12 de agosto de 2026

Perguntas frequentes

Qual a diferença entre SLA, DLP e LCD?

A fonte de luz. Na SLA um laser desenha cada camada ponto a ponto. Na DLP um projetor exibe a camada inteira de uma vez. Na LCD, também chamada de mSLA, uma matriz de LEDs passa por uma tela que mascara a luz. A consequência prática mais importante é o tempo: DLP e LCD curam a camada toda de uma vez, então encher a mesa quase não custa tempo, enquanto na SLA o tempo cresce com a área impressa.

Qual tecnologia produz a guia cirúrgica mais exata?

Em um estudo que comparou 72 guias feitas em cinco tecnologias diferentes, SLA, DLP e PolyJet apresentaram resultados equivalentes de veracidade e precisão. O que mudou a exatidão foi a extensão da guia, não a tecnologia. Em outro estudo, implantes instalados com guias de três tecnologias diferentes não mostraram diferença estatística de desvio. Ou seja: a escolha entre SLA, DLP e LCD não é a decisão que define a exatidão da sua guia.

Altura de camada de 25 micrômetros significa precisão de 25 micrômetros?

Não. Altura de camada é um parâmetro de fatiamento no eixo Z, não uma medida de erro dimensional. Em um estudo com seis impressoras, a veracidade dos modelos variou de 27,9 a 83,3 micrômetros, e o resultado dependia da máquina específica, não da tecnologia nem do número no catálogo. Pior: os desvios medidos dentro das cavidades, justamente onde a peça precisa assentar, foram maiores que o desvio global.

Posso usar qualquer resina?

Não, e essa é a parte que envolve risco ao paciente. Cada resina é formulada e validada para um uso, e a classe regulatória acompanha esse uso. Em um estudo com 600 discos impressos de resina de placa, a sobrevivência celular variou de 9,1% a 58,5% conforme a combinação de material, lavagem e pós-cura. Não é diferença de acabamento: é diferença de citotoxicidade.

O que acontece se eu pular ou encurtar a pós-cura?

A peça libera monômero residual. Em um modelo organotípico de mucosa oral, resina pós-curada por apenas um minuto reduziu em mais de 70% o metabolismo e a viabilidade dos queratinócitos, em todos os períodos avaliados. Com 10 e 20 minutos, o efeito foi apenas leve a moderado. A pós-cura também é uma etapa dimensional: um dos aparelhos testados em outro estudo produziu 0,52% de contração de polimerização.

A orientação da peça na mesa importa?

Importa para a exatidão, e não pela razão que muita gente supõe. Em modelos definitivos impressos em DLP, a orientação a 90° levou aos maiores desvios e a 0° aos menores. Já em citotoxicidade, a orientação de impressão não teve efeito significativo: quem manda ali são material, lavagem e pós-cura.

Preciso registrar minha impressora na Anvisa?

Não conseguimos confirmar essa resposta em legislação primária, então não vamos afirmar nada. O que está claro na legislação é outra coisa: a RDC 751/2022 classifica dispositivos médicos em quatro classes de risco e determina notificação para as classes I e II e registro para as classes III e IV. As resinas odontológicas circulam no Brasil justamente assim, com número e classe. Dispositivos sob medida ficam fora da RDC 751 e são tratados pela RDC 925/2024, que revogou a RDC 305/2019. Se a sua dúvida é sobre responsabilidade legal, converse com quem trabalha com regulatório, não com um site.

Impressora barata imprime guia?

Imprime, e a resposta honesta é mais interessante que sim ou não. Estudos comparativos não separaram a exatidão das guias pela tecnologia da impressora, o que enfraquece o argumento de que só máquina cara serve. Ao mesmo tempo, máquinas individuais variaram cerca de três vezes na veracidade dos modelos, e telas LCD comuns duram cerca de 500 horas contra cerca de 2.000 horas das monocromáticas. A diferença real está em calibração, validação do par resina e máquina, consumíveis e suporte, não no preço em si.

Guia impressa é pior que guia fresada?

Uma revisão sistemática apontou exatidão in vivo superior das fresadas, mas com ressalva explícita de que faltavam dados. Um estudo brasileiro comparando as duas não encontrou diferença significativa de veracidade nem de precisão. Na prática clínica, o apoio da guia e o número de dentes de suporte pesam mais que o método de fabricação.

Posso imprimir a guia com antecedência?

Melhor não. Guias de arco completo apresentaram aumento significativo do desvio de superfície após três meses de armazenamento, em resinas de SLA, PolyJet e DLP. Guias apoiadas em quatro dentes se deformaram menos. Imprima perto da data da cirurgia.

A impressora é a maior fonte de erro do fluxo?

Quase nunca. Em um estudo brasileiro da FORP-USP, modelos obtidos a partir de tomografia apresentaram distorção de até 1,0 mm no arquivo digital e 1,4 mm depois de impressos, nos espaços edêntulos, muito acima da ordem de grandeza do erro da impressora. O erro começa na aquisição. A impressora costuma ser o elo mais confiável da corrente, não o mais frágil.

FDM serve para alguma coisa em odontologia?

Para modelo de estudo e demonstração, com ressalvas. Nas comparações publicadas, uma impressora FDM ficou em último lugar entre seis, com 83,3 micrômetros de veracidade mediana e camadas visíveis. Para qualquer peça com superfície de assentamento, a fotopolimerização em cuba é o caminho.

Para continuar

Referências

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